ExperimentaDesign 2003

FRANÇOIS ROCHE
Arquitectura [FR]


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BIOGRAFIA
François Roche é um arquitecto francês que usa novas tecnologias e uma visão social crítica e ecológica para renovar códigos e formas na arquitectura contemporânea.
O seu trabalho é baseado numa visão crítica das nossas sociedades modernas e num constante respeito pelo ambiente.

Os seus projectos recentes incluem o Pollution Building, que muda de forma à medida que agrega partículas de poluição que se encontram na envolvente próxima.


PROGRAMA

1000 Plateaux - 24 Out. 22:00
Ficção (Científica) & Cultura de Massas

Não tendo em conta a análise galileana do futuro, uma exploração dos mundos inacessíveis que só a Ciência (ficcionada)pode entender nas alturas das suas certezas, a ficção (científica) escapou-se para os meandros da nossa sociedade digital. Os falsos passos de Bibendum (o homem de pneus da Michelin) na poeira suja da lua naquele dia de Julho de 1969 marcou o fim dos nossos voos entrópicos da imaginação. Os livros de Stephenson, Gibson, Stirling e outros, tendo sido anunciados como ficção especulativa, eram na realidade relatos ao vivo, e o espelho deformado que o género teve tendência para criar entre o espaço da imaginação e as nossas vidas diárias expandiu-se através de um universo de plausibilidades e dissolveu-se nas notícias, com todas as suas dimensões sociais.

Surpreendentemente, a ficção(científica)não se virou para a frente nem para trás mas para o aqui e agora. Os cenários que utiliza para manipular a realidade estão a tornar-se verdadeiros mecanismos de transformação e, paradoxalmente, alavancas estratégicas para apreender os abalos das nossas sociedades pós-digitais, a nossa cultura sufocada dos mass media.

Mas o interesse principal desta súbita imersão matix in vivo está nas ansiedades que provoca.

Em vez da Ciência (ficcionada) se manter um domínio para a propaganda positivista e determinista, deveria alimentar as sementes da nossa própria monstruosidade – a nossa perda de controle entre determinismo, teoria do caos e biogenética – como uma força que estabelece alianças entre hárpias e criaturas terrestres, o lado sombrio faustiano e o Sturm und Drang, contra as perucas racionalistas e as obras do espírito hegeliano, e se abre para um mundo onde até o medo se torna fábula, tão belo quanto carnal. Temos de negociar com o dobrar do instante, a invaginação do pensamento do futuro, e a vida num presente que é como um inclinar assimptótico no tempo, entre Back to the Future e Tomorrow Now, entre o tempo do sonho e o dia depois.

Sob estas condições paradoxais onde a noção e a percepção do tempo estão destruídas na superfície do imediato, como poderemos acreditar que a arquitectura possa ser unicamente constituída por avatares fossilizados, cadavers exquis cegos de ingenuidade e valores progressistas, por oportunidades de citação disfarçadas de entretenimento global?

Ao longo do tempo, todos os sistemas se tornam progressivamente desordenados ao atingir o estado final de equilíbrio total (a segunda lei da termodinâmica). Para analisar o nosso ambiente, as ciências físicas que resultaram do estudo da turbulência, vibração, desequilíbrios e probabilidade tomaram o lugar das ciências lineares onde as coisas são vistas como seguindo um percurso quantitativo e determinista.
Um por cento dos três mil ursos polares (Ursus maritimus) em Svalbard são hermafroditas, com uma vagina e um pénis. As condições de sobrevivência no Pólo Norte, incluindo resíduos nucleares soviéticos levados pela Corrente Árctica e a efluência carbónica da Corrente do Golfo, permitiram-nos observar a primeira mutação natural.
Bruce Sterling, Tomorrow Now, Random House, Nova Iorque, 2003.
Como poderemos reconciliar a nossa necessidade de salvar a Floresta Amazónica e ao mesmo tempo o nosso fascínio com o bulldozer (uma espécie de tractor com lagartas e tenazes de besouro) que a está a destruir? Esta atitude dupla protege-nos de alibis ecologistas, sonhos primitivistas de pureza e de Heimat, ao mesmo tempo que nos protegem de ficarmos escravizados pelos mecanismos da tabula rasa. A arquitectura consiste na revelação dessas duas dimensões contraditórias, e da sua constante tensão.